“Tu
mudaste, não eras assim. Eras mais carinhoso, preocupavas-te comigo, agora nem
sequer olhas para mim.” Ele respondeu-lhe “fui eu que mudei ou foste tu que
mudaste? Se saíres do teu umbigo poderás ver de verdade as coisas como são.
Deixa de viver no teu mundo de fantasia e desce à Terra. A vida não é como tu
desejas que ela seja.” O silêncio tomou de assalto a sala. Mas os pensamentos fervilhavam
na cabeça dela, ‘como ele é capaz de me culpar, eu que tudo fiz por ele. É um
ingrato, eu fiz dele o homem que é hoje.’
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
#14 Sem perdão
Começar
de novo é sempre difícil, mas é ainda mais difícil quando se vive agarrado ao
passado. Quando os rancores são muitos e constituem uma bagagem pesada que se
carrega onde quer que se vá. O peso desse passado esmaga o presente, pois a
atenção está sempre centrada no que fizeram, no que poderia ter sido diferente,
mas não foi. Ela vivia os dias culpando-o por lhe ter roubado o amor, por lhe
ter roubado a vida. Ele era tudo para ela e no entanto escolheu outra, depois
de lhe ter levado os seus melhores anos. Ela não lhe perdoava.
#13 Amor doloroso
Ele
dizia “perdoa-me, não estava em mim. Sabes como te amo, prometo que isso não se
vai repetir”. Ela acabava por perdoar, por querer acreditar que tal não
voltaria a acontecer, até porque ele só fazia isso porque a amava, se ela lhe
fosse indiferente ele não lhe batia. Foi criada a acreditar que o amor é
doloroso, que por vezes trata-nos mal porque nos quer bem. E no entanto voltava
a acontecer e ela ia ficando, não sabia o que fazer, não conhecia mais nada,
ele era a sua vida, já fazia parte da sua identidade. Descansa em paz.
#12 Diz basta
Chega
um momento em que é tarde de mais, sabes que tens de agir, que tens de fazer
algo, pois não suportas mais, não podes tolerar mais ser espezinhada, ser
destratada, como se de um farrapo se tratasse. Tão ou mais que a violência
física, é a violência psicológica continuada, que mais te desgasta. Quanto mais
o permites, mais longe de ti estás, deixas de ser uma pessoa, passas a ser um
mero adereço que serve para ser jogado ao seu bel-prazer e tu começas a
acreditar que mereces isso, que fizeste algo de errado. É hora de dizer basta.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
#11 Folha em branco
Se
a vida fossem só palavras ele seria o maior dos poetas, mas quando tocava a
lidar com as pessoas, aí as coisas tendiam a complicar-se para ele. Como que
perdia o jeito, não sabia como se comportar, onde colocar os braços, que
postura ter, o que dizer. Seria tão mais fácil se tudo fosse uma folha em
branco onde pudesse bailar a caneta distribuindo a tinta por forma a comunicar
os desejos, as emoções, os pensamentos secretos. Esse era o seu espaço natural
para se expressar. Mas a vida tinha outros planos, ele é a sua folha em branco.
#10 Escolho acreditar
“Prometo
honrar o nosso amor” disse-lhe ele, “cuidando de ti e da nossa relação. Não me
deixes cair no esquecimento e abandonado à tentação alheia.” “Quero muito
acreditar nas tuas palavras, elas são música para os meus ouvidos, mas já sofri
tanto por amor. Não sei se aguentaria mais uma desilusão.” Respondeu-lhe ela. “
Ao teu lado sinto-me completo, sei que sou melhor pessoa. Aconteça o que
acontecer, nada poderá mudar isso. Quero cavar as rugas da memória de uma vida
cheia ao teu lado.” Retribuiu ele. “Sei que és sincero quando dizes isso, sinto
que sim. Escolho acreditar” disse ela.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
#9 Caminhos
O
céu está azul, uma imensidão de azul e nada mais. Um vento suave faz-se audível
e sentir na pele. Pessoas caminhando, cada uma na sua direção, evitando chocar
umas com as outras, num bailado consentido e não ensaiado. Um movimento
incessante, uma pressa de chegar a qualquer lado, menos este aqui. E no entanto
é aqui que tudo se encontra, mas como estamos a pensar noutro lugar qualquer,
deixamos de reparar no aqui. Neste lugar o observador tudo vê, tudo sabe. O
silêncio aqui tudo permite, tudo abraça. Não importa por onde vás, todos os
caminhos levam até ele.
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