terça-feira, 24 de setembro de 2013

#5 Reflexo

Sara refletindo.Olho à minha volta e aquilo que vejo, aquilo que nos acostumamos a chamar de vida, acontece; as pessoas andam de um lado para o outro, perdidas nos seus pensamentos, representando o seu papel de marionetas numa sociedade desigual, numa sociedade separada de si mesma. Aqui é cada um por si, apenas os mais fortes sobrevivem, se evidenciam e subjugam os outros à sua vontade, cremos na escassez, a partilha só faz sentido se implicar um ganho superior de volta.Fomos ensinados a acreditar que ninguém dá nada a ninguém, que não há almoços grátis.Mas terá de ser assim? Resume-se a isto a nossa vida como seres humanos?Procurei sempre agradar aos outros e no entanto o resultado tem sido ficar sozinha.A culpa só pode estar em mim, que fiz de errado para que isso aconteça, quando olho à minha volta só encontro provas do meu fracasso.Não tenho uma família minha, aos 32 anos, começo a achar que vai ficando tarde para que isso venha a ocorrer. A nível profissional estou desenquadrada da normalidade, não tenho um emprego, nem sequer aquilo que chamam de trabalho; a maior parte das pessoas da minha idade ganham o seu dinheiro nos seus empregos e trabalhos, ainda que precários alguns deles, aquilo que recebem vai para pagarem casa, carro e alimentação,tentando juntar algum para a semana de férias;mas eu estou fora desse circuito, não sei qual o meu papel nesta sociedade. Estarei ficando louca?Sinto-me perdida, nada faz sentido, tudo me parece pequeno, tudo me parece limitado.Como se tivesse asas, mas estas tivessem presas, sem espaço para as abrir e voar.Será isto viver? A angustia que me envolve, que mergulha nas minhas entranhas, em cada pedaço de mim.Será isto vida?Tem de haver algo mais, recuso-me a aceitar que seja apenas isto, que todo este processo, desde o nascer ao morrer, se limite apenas a isto. Que sentido faz viver numa espécie de piloto automático, em que é esperado que tenhamos todos o mesmo tipo de percurso.A cada duvida assomavam mais duvidas, mais perguntas e as respostas não surgiam. Sara queria viver, queria saber mais.

Rastejando


Rastejando pela vida aceitando ser menos do que somos, procurando um lugar ao sol para aquecer o coração, senti-lo vivo, sentir cada batida como sendo verdadeira, por forma a viver de verdade; estaremos vivos ou é tudo uma ilusão? Ao encontro do real nas curvas do existir, tanto faz ser uma lagarta ou apenas um desenho ainda por concluir. O amanhã não vem porque eu existo apenas aqui, porquê esperar se a vida me diz olá sorrindo. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

#4 Reflexo

Verdadeiramente pedimos muito à vida, exigimos que ela seja aquilo que achamos que ela deveria de ser, só que aquilo que achamos que ela deveria de ser nunca é o suficiente, não é satisfatório, pois de cada vez que alcançamos algo que julgávamos ser o ideal para nós, um novo ideal nasce; num processo sem fim, sem descanso, vamos passando pela vida, sem a viver de verdade. Mas a vida não desiste de nós, ela cuida sempre de nós e dá-nos em cada momento aquilo que é necessário para despertarmos desse sonho ilusório, para quebrar esse piloto automático que nos acostumamos a chamar de vida, mas que no entanto é uma mera representação de um conjunto de ideia limitadas sobre o que somos realmente. Aquilo que nos leva a despertar da ilusão são os abanões que a vida nos dá, ela chama por nós e diz-nos acorda, abre os olhos e vê, realmente vê, sente aqui e agora a tua essência. E a Sara é um exemplo disso, é chegada a hora de ela fazer uma pausa do turbilhão da vida que ela tinha como sendo a sua e se voltar para si por forma a se encontrar. Ela tem andando perdida nas suas ideias, perdida nos seus relacionamentos sem se dar a oportunidade de se conhecer de verdade. Ela entregava-se totalmente ao outro, desaparecia na relação procurando agradar, procurando sempre ajudar o outro, só assim fazia sentido para ela e no entanto tudo acabava era relegada a si mesma, deixada para trás, como que num ciclo incessante do mesmo episódio sendo revivido vezes sem conta. Desta vez tinha sido diferente, era ela que escolhia partir, que escolhia se antecipar ao seu destino, ainda que cheia de duvidas, cheia de incertezas, mas disposta a saber mais, disposta a conhecer quem era de verdade, e qual o seu papel neste mundo. A vida tem de ter um sentido, pensava a Sara e ela partiria à sua descoberta, já tivera a sua dose de sofrimento, mas agora queria se colocar em primeiro lugar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

#3 Reflexo

Todos os seus relacionamentos viam um fim, não era este o seu primeiro e ela saia de cada um dos seus relacionamentos com a mesma sensação que não era valorizada, que era colocada em segundo plano, sentia-se como sendo uma atriz secundária da estória do outro. Ela é a Sara assim conhecida há 32 anos sempre pronta a conhecer mais, sempre em busca de respostas para todas as perguntas que brotavam dentro dela em cada momento, todas essas duvidas faziam com que se sentisse insatisfeita, quando as respostas que procurava fossem surgindo mais questões eram levantadas, e a procura era incessante. Estava sempre em movimento, parar na sua ideia era morrer, a vida para ela é ação, é movimento, só assim se sente a viver. Ela não se permitia um momento só, não queria estar na sua companhia, considerava-se desinteressante, para ela os outros eram sempre mais interessantes, ela gostava de viver em função dos outros, achava que tinha que ajudar os outros, que tinha de agradar aos outros.Mesmo que isso significasse ir contra a sua vontade, muitas vezes dizia que sim, quando lhe apetecia dizer que não, mas não o fazia, pois não queria desiludir ninguém. No fundo ela gostava de se sentir como útil aos outros, ainda que por vezes era apenas usada, tida como aquela que está sempre disponível para fazer o que mais ninguém queria fazer e assim corriam os seus dias, era esta a sua realidade. Mas as questões continuavam a se avolumar, as duvidas eram constantes, um manancial de duvidas geradas umas a trás das outras e as respostas iam sendo cada vez menos. Ela perguntava-se será isto a vida, será para isto que eu nasci, que significado tem a vida sendo vivida desta maneira.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

#2 Reflexo

Chega, por mim chega, não permito que leves mais pedaços de mim. Ergo o que resta em mim e vou-me embora, parto ao encontro da felicidade, ao encontro daquilo que mereço. Mereço mais do que me tens dado, mereço mais do que apenas estar aqui para ti, sem nada receber em troca. Por mim é definitivo, quero ser livre, quero viver a vida e respirar ar puro, até aqui apenas respiro o teu ar, apenas vivo a tua vida; não quero mais isso, vou à procura da minha vida, vou procurar completar os pedaços que arrancaste de mim, o tempo suspenso de mim vivido em função de ti. Por isso adeus. E saiu batendo a porta esperando que esta fechasse um capitulo da sua vida que não queria que se repetisse mais, esperando que a dor que pesava no seu peito não a impedisse de caminhar para longe, para bem longe desta vida que não  via mais como sendo a sua, carregava ainda o peso de todas as memórias construídas a dois, mas que para ela agora pareciam apenas memórias de uma vida construída desempenhando um papel secundário, sempre vivida em função do outro que julgava ser o seu amor eterno, daquele que um dia jurou amá-la para sempre e que ela escolheu acreditar com toda a vontade e desejo ardente. Decidida a cuidar da sua dor, sem deixar que esta a arrastasse para o fundo da existência, sofria muito, sim, a dor não dava descanso a nenhum recanto do seu ser e no entanto, ela escolhia seguir em frente, fosse isso o que fosse. Poderia até não encontrar a vida que merecia, mas pelo menos seria vivida na primeira pessoa, seria a sua vida e não a sombra da vida de outro alguém.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

#1 Reflexo

Todos os momentos são iguais excepto quando não o são, aquilo que os diferencia é a perceção que tenho deles, os momentos continuam a ser iguais, eu é que os vejo de forma diferente, é que os sinto de forma diferente. A vida que julgo ser a minha é uma mera coleção de julgamentos, julgamentos sobre o que acontece ao meu redor e que eu achava nada ter a ver comigo e digo achava porque já não penso assim, sei agora que tudo é uma mera projeção do meu interior, um espelho do turbilhão de pensamentos que pululam na minha mente; ao despertar comecei a relembrar quem sou de verdade e essa verdade diz--me que este sou é em si mesmo uma ilusão; é mais um pensamento, é parte de uma família de pensamentos que se tornaram hábitos, que se foram repetindo e que criaram esta ilusão de personalidade, que se limita, que se aconchega num corpo sob o comando de uma mente. A lembrança começou através da observação, uma observação em silêncio, um silêncio interior, pois o ruído mais pernicioso para o ser humano é aquele que se ouve apenas dentro da sua mente, é esse ruído que o ilude, que o afasta de quem é de verdade, que o mantém distraído; um ruído que o aprisiona a limites de pequenez que o fazem crer como incompleto e quando essa crença de incompletude se estabelece, o faz entrar num ciclo de procura incessante pela parte que lhe falta. Essas faltas nunca são verdadeiramente preenchidas, pois há sempre algo de novo que surge na sua atenção para o desviar da sua essência e num ciclo incessante tudo começa de novo, uma busca por mais e mais, até que o fim chega, até que o corpo, já desgastado, desiste de procurar mais, desiste de viver, mas não o diz a ninguém, apenas se apaga, apenas diz basta, quero descansar. E aquilo que nunca começou termina, num enrugado de ilusões vibrando ao sabor da vida.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tudo é parte do todo

Parando por um momento deste viver automático,
qual boneco articulado, marioneta do ego.
Puxando os cordelinhos e reparar que o ego não tem sustentação,
que está suportado por uma ilusão,
e que existe apenas por medo de descobrir,
a verdade que nenhuma ilusão pode esconder.
O despertar começa com a questão,
quem sou eu?
quem sou eu?
E quando a vontade de responder vem,
escolher observar a resposta que surge, e esperar,
esperar que a resposta passe,
e quando ela passa liberta-se espaço para que a verdade se manifeste.
Ela está sempre presente, são apenas os véus ilusórios que desviam a atenção,
da essência, sem contudo a poder tocar.
Nada toca a essência,
ela não existe para a ilusão,
esgotando-se a ilusão, aquilo que é, continua sendo.
A verdade do ser, desfruta da sua existência,
em cada manifestação, sempre se expandindo,
sem julgar, ou excluir.
Tudo é parte do todo.