Vagueando
pelo mundo perscrutava cada recanto da sua mente em busca das memórias construídas
com ela. Dos momentos em que teve a oportunidade de a amar verdadeiramente e de
lhe mostrar isso mesmo. Só quando se perde aquilo que antes se dava por
garantido é que se dá valor ao quanto tinha, ao quão feliz era. Mas a constante
insatisfação, a procura do que não tinha, uma suposta ideia de perfeição inalcançável,
porque de verdade quem busca apenas encontra a necessidade de continuar a
buscar. Sendo essa mesma busca que impede de ver o quão perfeito e pleno já é.
terça-feira, 7 de junho de 2016
#76 Amor- próprio
Só
quando se viu na iminência de a perder é que tomou consciência de quanto a
amava. Nem sempre soube valorizar suficientemente o que sentia por ela e
fazê-lo refletir nas suas atitudes e comportamentos com ela. Era mais simples
culpá-la de tudo e descartar responsabilidades, se ela quisesse tudo poderia
ser mais simples, mas não, com ela, segundo acreditava até então, tudo tinha
que ser como era suposto ser. Quando na verdade era ele que procurava forçar a
realidade para que fosse como ele achava que deveria de ser. Não tinha ciente
ainda que na verdade não se amava.
#75 Ilusoriamente reais
Num
momento de lucidez vislumbrou a realidade tal como ela é. De facto a vida não
conspirava contra si, ninguém deliberadamente agia para que ele falhasse. Tudo
isso era resultado da estória que contava si mesmo e como tal procurava as
evidências que a sustentava. Reparou que na verdade não havia esse alguém a
quem pudessem acontecer tais injustiças, como pensava até então. Tudo aquilo
que ele pensava e tudo aquilo que ele fazia, girava em torno de uma
personalidade que não existia na realidade. Tudo eram estórias criadas sobre
uma estória e só o apego as tornava ilusoriamente reais.
#74 Injustiça ilusória
Envolto
nos seus pensamentos, mergulhado nas suas estórias, ele via como tudo começava
a ruir à sua volta. E no entanto continuava a culpar os outros, as
circunstâncias ou a falta de sorte, pela sua situação. Sentia que merecia mais,
que a vida lhe era injusta e que se houvesse justiça ele estaria muito melhor
do que estava naquele momento. Ele acreditava que tinha muito valor, mas o
mundo não lhe concedia a oportunidade de o demonstrar. Se alguém reparasse no
quanto tinha para dar, no quanto ele podia fazer a diferença na vida dos
outros, tudo seria diferente certamente.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
#73 Sentir
O
silêncio ocupava todo o espaço, tudo gravitava envolto nele. Uma sensação de
estranheza emergiu nela, como que deixasse de ter identidade, aquela que
pensava ser, parecia a ter abandonado. Um medo repentino irrompeu. Estaria a
ficar louca, indagava-se. De novo o silêncio levava a sua atenção. Agora uma
sensação de paz fazia-se sentir. Uma certeza de que tudo estava bem, que tudo
era perfeito, tal como era. Não sabia explicar por palavras, mas tudo fazia
sentido, tudo era pleno e só podia ser como era. As palavras, as expressões
eram pequenas demais para descrever tal certeza. Deixou-se sentir.
terça-feira, 31 de maio de 2016
#72 Relembrar
Quando
se desiste na verdade não significa que seja o fim, mas sim é o início de um
novo tempo na relação consigo próprio, isto porque a vida nunca desiste de nós,
a vida continua segurando as pontas com carinho, esperando que estejamos preparados
para relembrar quem somos de verdade. Quando não parece haver mais saída,
entregamos ao destino a nossa existência, exauridos de forças para tentar
forçar a realidade para que ocorra como queremos que ela seja, o que acontece
depois não é o término, mas sim uma libertação. Um relembrar que somos mais do
que pensávamos ser. Plenitude.
#71 Queda
Estava
decidida a fazer uma pausa, na verdade não tinha escolha pois as forças que
ainda possuía haviam-se esvaído, a gota de água que fez transbordar o copo da
sua resistência foram as palavras daquela que tinha como sua melhor amiga,
quando esta lhe disse simplesmente não te aturo mais, estás impossível. Logo
ela a quem tanto ajudara nos seus momentos menos bons e foram tantos esses
momentos. Agora virara-lhe as costas.
Ingrata, pensou ela, quando precisares escusas de me procurar. E entregou-se a
ter pena de si própria, culpando tudo e todos pela sua falta de sorte.
Deixou-se cair.
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