quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Aventura de viver

A pulsação estava acelerada, os pensamentos eram incessantes, tudo lhe oprimia, tudo sufocava. Não sabia quanto tempo mais poderia aguentar. As soluções pareciam ser inexistentes, achava-se a pessoa mais infeliz do mundo. Ao seu redor todos pareciam saber o que faziam, pareciam ter algo para contribuir para o mundo, ter um propósito. Ela achava-se inútil, achava que ninguém precisaria dela, que era insignificante. 
Os outros da sua geração pareciam ter tudo organizado, tudo encaminhado, famílias criadas, estabilidade profissional e ela parecia-lhe que ainda estava na linha de partida de uma corrida que havia começado muito tempo atrás. 
O que poderia fazer para que algo mudasse? O que poderia fazer para ser notada? 
Ela achava por vezes que era invisível aos olhos do mundo, como que a sua vida pairasse no ar sem nunca tocar o chão que todos os demais pisavam. 
Sempre achou que o seu "príncipe" encantado surgiria e a salvaria, dando-lhe um propósito para viver, dando-lhe significado aos seus dias, mas por uma razão ou outra, tal pessoa nunca surgiu na sua vida, continuava só. Tinha-se como única companhia e por vezes sentia-se mal acompanhada. Era doloroso estar na sua pele, era muito desconfortável. 
Decidiu que bastava, tinha que ir ao fundo da questão ao encontro das respostas que necessitava e começou a cuidar mais de si, começou a notar mais nos seus sentimentos, nas sensações que o seu corpo manifestava, começou a ouvir mais a sua intuição. Passou a ler mais, desde romances a livros de desenvolvimento pessoal. 
Encetara uma viagem de descoberta pessoal, acreditava que desse modo as mudanças que desejava poderiam ocorrer. E a realidade veio dar-lhe provas disso mesmo à medida que se foi tornando mais consciente de quem era, respeitando a sua natureza humana e os ritmos do seu corpo, começou a receber sinais da vida que lhe ajudavam a estar mais presente, que lhe permitiam desfrutar mais de cada momento e mais em paz consigo mesmo e isso notava-se na sua realidade. 
Quanto mais amava a pessoa que era mais sinais de amor surgiam na sua vida, o comportamento dos outros junto dela pareciam-lhe diferentes, sentia agora que era notada, que finalmente pisava o mesmo chão que os demais, que podia fazer algo de significativo sempre que respeitasse a sua natureza, a sua essência e assim continuou a aventura que é viver, livre de expectativas e aceitando o que a vida a presenteava em cada momento.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Desilusão

Só quando deixou de exigir demasiado da vida e de si mesma é que ela encontrou o que tanto desejava e que sempre esteve tão perto dela e não se havia permitido ver. A serenidade, a paz de espírito que tanto ansiava já habitavam nela e só vislumbrou essa realidade após deixar cair as expectativas que criara em torno das pessoas que compunham a sua realidade. Chegara à conclusão que quanto mais queria que uma pessoa se comportasse de determinada forma mais se desiludia com essa pessoa e no entanto, sabia agora, que a "culpada" era ela e as expectativas que criara e não a outra pessoa. As pessoas são como são e comportam-se como tem de se comportar e por isso não nos desiludem a única coisa que nos pode desiludir são as ideias que criamos, as expectativas que criamos em torno dessas pessoas. Sabendo disso agora, após tanto sofrimento, após tanta desilusão, ela sentia-se mais leve, mais centrada na sua pessoa, mais confortável na sua pele e o bom disto tudo é que ao seu redor as pessoas pareciam-lhe diferentes, como que mais ligadas, mais atentas à sua vontade, à sua postura.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Deixar de resistir



A insatisfação era uma constante nela, nada era o suficiente, onde quer que fosse, com quer que estivesse, algo lhe faltava. Só lhe apetecia estar onde não estava, tendo o que não tinha e tudo o resto estava sendo quase insuportável. 
Algo teria de mudar em breve pois não sabia quanto mais poderia aguentar. As suas relações de amizade, familiares e profissionais estavam a ressentir-se de tal situação. 
Ela mesma não se tinha como boa companhia quanto mais as outras pessoas que se estavam a afastar cada vez mais dela. Não sabia o que fazer, não sabia como se comportar na sua própria pele, esta como que a queimava de tão colada estar a tal insatisfação. 
Não aguentava mais, decidiu desistir e no entanto pôr fim à vida não era uma opção, nunca foi, pois esta era demasiado valiosa para deixar de a viver. Isso ela tinha como certeza que a vida era para ser vivida, fosse como fosse. 
Prostrou-se perante a vida, entregou por completo a esse algo superior, que acreditava existir, ainda que não estivesse confortável a nomear esse algo superior, ela acreditava que existia. Deixou de resistir ao que sentia, deixou que o desconforto viesse à superfície em pleno, que tivesse o palco todo para se manifestar. 
Fazendo isso, qual não foi a sua surpresa quando tomou consciência que aquilo que antes parecia tão insuportável, afinal era suportável, ela estava a suportá-lo e o que se seguiu foi que em vez de aumentar de intensidade, essa insatisfação foi perdendo presença nela, não que ela tivesse feito nada para isso, apenas lhe cedeu espaço para bailar na sua atenção. 
Quando partiu a insatisfação aquilo que restou foi uma serenidade, uma sensação de leveza, de verdade nada havia mudado na sua realidade, as pessoas, os lugares continuavam a ser os mesmos e no entanto a forma como isso a impactava era agora muito diferente. 
Continuou entregue ao fluxo da vida, ao sabor do que esta lhe dava e como isso era o bastante, e como isso a deixava em paz com a sua pele, com o seu sentir.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sei agora



Segui demasiado tempo exigindo de ti que me fizesses feliz, que me amasses como gostava de ser amado. 
Sei agora o quanto fui injusto contigo, pois exigi muito mas pouco foi o que te dei. 
Quis sempre tudo em troca de tão pouco para dar. 
Sei agora o quanto isso te fez sofrer e quanto isso me faz sofrer. 
Sei agora que é demasiado tarde, atingiste o teu limite e escolheste partir, pegando nos pedaços de ti que sobraram da minha exigência e foste em busca da felicidade que merecias e mereces. 
Sei agora o quanto sinto a tua falta, o quanto desperdicei o teu amor, o teu carinho. 
Sei agora o quanto estaria disposto a dar para voltar atrás com esta sabedoria atual e brindar a tua presença com o carinho, atenção e amor que mereces. 
Sei agora demasiado bem o valor do amor que já não tenho. Só quero que sejas feliz no regaço de quem te valorize e te dê a atenção devida. 
Sei agora que o amor não me abandonou e que me dará mais oportunidades de o sentir de novo. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

#100 Outras vidas

As palavras surgem na mente, mostram-se tal como querem ser conhecidas e o escritor plasma-as no papel. A inspiração não tem dono, ela paira no ar e vai sendo captada pelas mentes que sintonizam nas diferentes vibrações de tais ideias. O autor é aquele que se disponibiliza para aceitar tais vibrações e dar-lhes uma nova forma que ganhará vida própria a partir do momento em que começa a ser lida por outras pessoas. Essas pessoas ao lerem tais palavras, tais ideias podem ao sintonizar nessas vibrações sentir de verdade sensações que as podem transportar para outras realidades, para outras vidas.

#99 Culpa

Os pensamentos surgem incessantemente e no entanto agora era capaz de os observar, tornar ciente em si a ocorrência desses pensamentos e de como ela era o espaço onde eles se manifestavam. Ela sabia que não se limitava nesses pensamentos e que podia, através da sua atenção decidir quais eram mais importantes para ela e desse modo para aquilo que tinha de experienciar na sua realidade. Estava ciente de que era criadora da sua realidade, que tudo acontecia primeiro dentro dela e depois se manifestava na realidade externa. Isso levou-a a deixar de culpar os outros pela sua vida. 

#98 Algo superior

O desconforto era cada vez maior, a ideia de que a vida se resumia a casa trabalho, trabalho casa, num emprego das 9h às 18h, essa ideia era cada vez mais insatisfatória. Teria de haver algo mais interrogava-se ela, e essa ideia de que deveria de haver algo mais ocupava cada vez mais tempo da sua atenção. Ela era uma pessoa de fé, ainda que não tivesse nenhuma religião, ela cria que algo de superior existia, não sabia como o definir, mas nenhuma das descrições da religiões existentes na terra se aproximavam ao que ela sentia ser esse algo superior.