quinta-feira, 7 de julho de 2016

#94 Entrega

“Não vales nada”, “És um falhado”, “ O mundo não precisa de ti para nada, podes desaparecer que ninguém nota”. Estes pensamentos seguiam-se em catadupa na mente dele e ocupava toda a sua atenção, fazendo-o sentir-se cada vez mais pequeno, mais insignificante, a pressão no seu peito aumentava, como que o asfixiando, a visão estava turba, tudo parecia rodar. Uma sensação de medo tomava conta dele, seria isto a morte, interrogava-se. Seria este o seu fim? Deixou-se cair no pavimento que sustinha o seu corpo, ainda estava consciente daquilo que passava, das sensações que afloravam em si. Queria desistir. Entregou-se.

terça-feira, 5 de julho de 2016

#93 Perder o chão

Aquela que está a ouvir estas palavras não existe, procura por ela e verás que não existe. Estas foram as palavras dele que a fizeram perder o chão interno, literalmente. Tudo aquilo que ela acreditava ser, cessara naquele momento. O que antes seria um terror para ela enfrentar, pois a sua personalidade era o que ela mais valorizava e só a ideia de perder tal identidade era inconcebível para ela, agora pereceu e o que resultou daí não foi o fim, mas sim um novo começo, uma nova relação com aquilo que julgava ser a sua vida. Ela é vida.

#92 Ela é vida

Aquilo que ela acreditava ser revelava-se agora como a ilusão que sempre fora. Ilusão essa criada por si, alimentada pela sua atenção e projetada na sua realidade externa que se limitava a comprovar aquilo que ela criara e como fora ela que criara não tinha como não acreditar nas provas que criara. Esse ciclo incessante ilusório era agora evidente para ela, uma vez que conseguira sair do ciclo e observá-lo desde o espaço de consciência que é. Nada existe fora da consciência que é, ela sabe que o mundo não existe fora de si, ela é o mundo, é vida.

#91 Reparar na verdade

Os pensamentos eram incessantes, surgiam em catadupa na sua mente e ela sentia que se estava a perder, que estava a ficar louca. Só que algo nela incutia-lhe uma calma serena que lhe garantia que tudo estava bem, que nada havia a temer. E com essa sensação ela entregou-se à experiência que estava a viver. O que surgiu de seguida foi um distanciamento entre os pensamentos que havia estado imersa até então e como que se via a planar sobre esses pensamentos, e tal como surgiam, partiam. Os pensamentos aconteciam nela, ela era o espaço que os permitiam acontecer livremente.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

#90 Olhar de forma diferente

Chega, chega, chega, não quero sentir mais pena de mim. Estava tomada a decisão que mudaria a sua vida, ela sabia que não lhe interessava mais viver como sempre havia vivido até então. Só problemas e mais problemas e sempre sentindo-se indefesa, impotente para agir e resolver o avolumar de problemas que explicavam a sua existência. Se a vida lhe dava essas situações então alguma utilidade elas teriam e em vez de as rejeitar como sempre fez, ela decidiu olhar para elas de forma diferente, procurando ver essas situações tal como eram e não como ataques pessoais para seu mal.

#89 Ciclo incessante

A dor rasgava a sua presença na vida, queria que desaparecesse, que terminasse, de uma forma ou de outra, o que ela queria era o fim de tal dor ou então que terminasse a sua vida, nada mais fazia sentido, nenhum propósito a mantinha desejando viver. Cada recanto do seu ser berrava de dor, cada centímetro do seu existir clamava que cessasse. O que teria feito que justificasse tal sofrimento, que mal teria realizado para merecer tal castigo. Tudo ideias que inundavam a sua mente e no entanto eram essas ideias o alimento da dor que sentia, num ciclo incessante. 

#88 Insuportável

Houve um momento onde se deu o click, aquilo que antes lhe parecia insuportável era agora visto como suportável, porque de facto o estava a suportar, ela estava a lidar com a situação, ainda não tinha morrido, então estava a suportar aquilo que antes lhe parecia insuportável e essa ideia ressoou dentro dela de uma forma clara. A única diferença não era a situação que continuava a existir de igual modo e sim o modo como ela via essa situação. Sendo aparentemente um pormenor fazia uma imensa diferença no modo como se sentia perante a situação. Nada mais seria igual.