quinta-feira, 23 de junho de 2016

#82 Propósito

Perante tantas dificuldades que sempre teve de enfrentar ao longo da vida e farta de tanta luta, de tanto sofrimento, ela interrogava-se cada vez mais sobre o propósito disto tudo, a razão pela qual as coisas eram como eram. Teria de haver uma outra forma de ver as coisas, uma justificação para que tudo fosse assim como era e ela ter de passar tantas provações, só poderia haver um significado colado a tudo isto. De outro modo nada faria sentido, sem haver um propósito, nada faria sentido. Essa sensação preenchia cada vez mais a sua atenção. Tudo tem um propósito.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

#81 Dúvida

Ela pensava para si mesma, não sei o que há, não sei o que é verdade ou ilusão. E essa sensação permanecia com ela assaz tempo. Ocupava toda a sua atenção, mesmo quando fazia as suas rotineiras tarefas diárias, essa sensação de incerteza, de dúvida existencial estavam lá. Uma sensação estranha de que quem ela acreditava ser, não passava de uma ilusão. Sentia que não podia ser apenas aquele rosto que via no espelho, aquele corpo que se movimentava pela vida. Estaria a ficar louca, interrogava-se. Seria isso um sinal que se estava a afundar e que perderia a razão?

#80 Validação

Tinha que haver uma outra forma de fazer as coisas, uma melhor forma de agir para que a situação pudesse melhorar. Ela não tinha mais forças para aguentar tal situação, era insuportável continuar tudo igual. A dor perpassava o seu ser e não sabia como diminuir tal dor, tal sofrimento. E no entanto ela estava aguentando tal situação havia já muito tempo, na realidade, ainda que inconsciente, ela baseava a sua existência, a validação da sua existência, no suportar de tal situação. Ainda que dolorosa, essa situação era o ar que a alimentava e lhe dava uma razão para viver.

#79 Mudar

O julgamento estava sempre presente, tinha sempre que criticar o que estava a acontecer ao seu redor e como ela detestava que as coisas na sua vida não fossem como gostaria ela que fossem. Se ao menos as mudanças que tanto procurava incutir nas pessoas mais próximas produzissem alguns efeitos, mas ela achava que não havia emenda, aquelas pessoas não mudavam, nem por nada. Por muito que fizesse, por muito que chamasse à atenção e discutisse com essas pessoas, elas continuavam a ter o mesmo tipo de comportamentos que sempre tiveram. Tal como ela continuava agindo como sempre havia feito.

#78 Caminhando

Quando caminhava ela não caminhava apenas, mas sim estava envolta nos seus pensamentos. Nesse diálogo interno incessante na sua mente e do qual não tinha descanso. Sempre preocupada com o que tinha de fazer, sempre remoendo no passado e no quanto achava que a vida tinha sido injusta com ela até então. Ansiando por um futuro melhor onde pudesse conhecer alguém que a amasse de verdade, que cuidasse dela, pois ela estava cansada de ser ela a ter que cuidar dos outros e não ver reconhecimento algum. Pulando entre temas esse diálogo era interminável e no entanto a caminhada continuava.

terça-feira, 7 de junho de 2016

#77 A busca

Vagueando pelo mundo perscrutava cada recanto da sua mente em busca das memórias construídas com ela. Dos momentos em que teve a oportunidade de a amar verdadeiramente e de lhe mostrar isso mesmo. Só quando se perde aquilo que antes se dava por garantido é que se dá valor ao quanto tinha, ao quão feliz era. Mas a constante insatisfação, a procura do que não tinha, uma suposta ideia de perfeição inalcançável, porque de verdade quem busca apenas encontra a necessidade de continuar a buscar. Sendo essa mesma busca que impede de ver o quão perfeito e pleno já é.

#76 Amor- próprio

Só quando se viu na iminência de a perder é que tomou consciência de quanto a amava. Nem sempre soube valorizar suficientemente o que sentia por ela e fazê-lo refletir nas suas atitudes e comportamentos com ela. Era mais simples culpá-la de tudo e descartar responsabilidades, se ela quisesse tudo poderia ser mais simples, mas não, com ela, segundo acreditava até então, tudo tinha que ser como era suposto ser. Quando na verdade era ele que procurava forçar a realidade para que fosse como ele achava que deveria de ser. Não tinha ciente ainda que na verdade não se amava.