quarta-feira, 6 de abril de 2016

#70 Viver sem ti

Sem ti não quero mais viver. A vida termina a partir do momento em que me deixes, tu és a minha razão de viver. Disse-lhe ela, com os olhos marejados de lágrimas. Para, consegues escutar o que ditas boca fora. Tens noção do quão desorientada estás e que nada do que dizes faz sentido para mim. Respondeu-lhe ele. A tua chantagem emocional não me aprisiona mais. Deixei de ter pena das tuas teatralidades, a peça que levas a cena constantemente, já não entra em mim. Não tem reflexo algum naquilo que sinto por ti. Continuou ele sem sombras de remorso.

quarta-feira, 30 de março de 2016

#69 Liberdade

Uma dor aguda emergiu no seu corpo, normalmente teria de se fechar no seu quarto e desaparecer do mundo, até que a dor a abandonasse. Nada, nem ninguém a podia ajudar. Até agora. Ela havia tomado uma decisão de se libertar de tal prisão, o seu limite havia sido atingido. Estava farta de se submeter ao poder da dor. Agora escolhia enfrentar a dor, ver até onde chegava o seu limite. Permitiu-se observar a dor, de que modo se manifestava no seu corpo, que intensidade tomava essa dor. Conseguiu descolar da dor, ela estava lá, mas não a dominava. Liberdade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

#68 Dentro

Ela descobriu o amor-próprio, resultado de inúmeras desilusões amorosas, umas apenas platónicas, outras não correspondidas e uma tentada e falhada. Ela já havia desistido de encontrar alguém que a amasse tal como ela se disponibilizava para amar. Para ela amar só era possível de corpo inteiro, entregava-se totalmente, daí que tenha sofrido tanto por amor. Sabia agora que não era assim, o que a fazia sofrer era essa sensação de incompletude, sensação de falta que projetava no outro na esperança que a completasse. Aprendeu que ninguém teve culpa pela sua falta de amor, pois ele sempre esteve dentro de si. 

#67 Amor não correspondido

Todo o amor não correspondido aponta para o verdadeiro amor e esse amor reside dentro de cada ser humano. É essa a sua essência. Como tal todo o amor correspondido é uma ilusão divergente da atenção do que é essencial, enquanto acreditarmos que outra pessoa nos pode dar o amor que cremos faltar, mais iludidos sobre quem somos estamos. A desilusão amorosa é um encurtar do caminho para a verdade. Seguindo esse caminho o quanto antes, mais livre ficamos para viver em pleno o amor que somos. Amor esse que nada exige, nada necessita e tudo partilha, seguro de si.

#66 Pulsão interior

Nada é suficiente quando desconhecemos quem somos de verdade. Essa ânsia por ser mais, por encontrar um amor real, leva a uma busca incessante. Cada rosto é perscrutado na tentativa de encontrar a tal, a tão almejada cara-metade. Pura ilusão, pois cara alguma existe pela metade, mas como esquecemos isto, a busca torna-se perene. Mesmo quando encontramos alguém que se voluntaria, ainda que inconscientemente, para representar esse papel, de alguém que nos completa, rapidamente essa pulsão interior faz emergir a busca. Não tem fim tal situação até que nada mais reste a não ser o próprio e as suas ideias.

#65 Insatisfação

A realidade em que vivia era insatisfatória, o que quer que trouxesse algum ânimo à sua existência era passageiro, em pouco tempo desvanecia tal satisfação e o que relevava com mais força era essa insatisfação crónica. Como era difícil viver a rotina do dia-a-dia quando tudo se tornava escasso, quando tudo ficava aquém do seu padrão de exigência. Nada parecia poder solucionar tal busca incessante por algo que fizesse, pelo menos diminuir tal insatisfação. Por mais que tentasse nada havia resultado. Um dia porém, um estranho dirigiu-se a ela e disse-lhe a paz que procura reside dentro de si, liberte-a. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

#64 Estória

A dor perpassava todo o seu corpo, não havia pedaço dela em que a dor não se fizesse sentir. Mas o pior desta dor é que ela não é uma dor física, ela é inteiramente mental. E no entanto faz-se sentir de múltiplas maneiras nela. Sem saber mais o que fazer, como lidar com tal dor, ela havia decidido desligar-se do mundo. Fechando-se no seu quarto, enroscando-se em torno da dor que sentia, ela permitiu-se entregar à dor. Resolveu viver cada sensação, observar como se manifestava ao longo do seu corpo. Algo mudou, percebeu que tudo era uma estória acontecendo.