segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

#63 Pensamentos

Ela pensou: morreu a vida em mim que julgava viver, convencida que era o fim da minha história, que nada mais restava para mim, desisti. Prostrada no âmago do meu ser, entreguei-me ao destino. Não importa mais o que me aconteça, seja o que for, que aconteça rápido e que faça terminar este sofrimento, esta angústia de não saber, de não ter rumo que seguir. O que será de mim, não me importa mais. Cansei de viver esta batalha constante contra as adversidades. As forças que me restavam esvaíram-se. Não sei mais o que fazer. Como dói tudo isto. Silêncio 

#62 Entregue à verdade

A vida pensada abandonou-me, fiquei entregue a mim mesmo. Julgava ter ficado perdido e no entanto o contrário era a realidade. Livre do que pensava ser, o que restou foi aquilo que sou de verdade. O que parecia ser menos revelou-se abundância. Um entendimento de que tudo é perfeito assim como é, espraiou um manto de harmonia e paz em mim e em tudo o que me rodeava. Por fim podia descansar de uma guerra que havia batalhado a vida toda e que nem tinha a noção estar a travar. Quando o esforço de controlo acabou tudo ficou mais simples.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

#61 Vazio

Um vazio havia tomado conta dela desde o término da sua relação de quinze anos com o seu companheiro. Ainda não tinha assimilado totalmente a ideia de que havia terminado. As horas rotineiras apanhavam-na sempre esperando ouvir a voz e os gestos dele, no seu jeito único de ser. Os jeitos e trejeitos dele eram já parte dela, faziam parte da sua identidade. Ver-se sem eles criaram um vazio que tomava cada vez mais lugar na sua atenção. Desistir parecia ser a única solução. Ele já havia desistido dela e isso parecia-lhe a vida desistindo dela.

#60 Momento na tua vida

Chega um momento na tua vida onde colocas tudo em causa, onde questionas aquilo que fizeste até então, aquilo que alcançaste e tudo aquilo que ficou por fazer. Uns chamarão isso de crise de meia-idade, outros uma crise de identidade. Mas o que é um facto é que essas ideias apoderam-se de ti, ocupam a tua atenção a maior parte do tempo e tudo o resto parece perder o espaço para existir, parece perder importância. E quando questionas tudo, quando te pões em causa, uma de duas soluções ocorrem. Ou desistes da vida ou elevas o teu nível de consciência.

#59 Incondicionalmente

“Sei que criaste uma versão idealizada daquilo que é a nossa relação e esperas que eu desempenhe o papel que imaginaste para mim. No entanto eu sou real. Sou uma pessoa de carne e osso. Também tenho desejos e ideias sobre o que é o melhor para nós dois. E também sei, agora, passados todos estes anos contigo, que na verdade essas expectativas que criamos sobre aquele que é o papel de cada um nesta relação, só nos leva à frustração. Sei, agora, que deixando de cair as expectativas que tinha sobre ti, fiquei mais livre para te amar incondicionalmente.” 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

#58 Elos eternos

As relações verdadeiramente não terminam, elas transformam-se, ganham novos contornos e isto é assim porque as relações não se limitam às personalidades que as executam. Os relacionamentos não se dão entre dois corpos e mentes que se entregam num determinado período no tempo, mas sim dentro de um espaço ilimitado de consciência tornando-se ciente de si mesmo através dessas múltiplas relações que dele brotam. As pessoas nunca se separam de verdade, seja qual for a natureza do seu relacionamento, seja qual for a duração do mesmo. Fica sempre grudado na história de cada um, pedaços de cada interação, elos eternos.

#57 Acabou

Algum dia a conversa teria de ter lugar, como as coisas estavam não podiam mais continuar. E esse dia era este. Pegou-lhe nas mãos e olhando-a nos olhos disse-lhe ‘quero resguardar as memórias felizes de nós os dois e temo que se continuarmos neste caminho de afastamento continuado, sem querermos enfrentar o que se passa entre nós, essas memórias possam ser substituídas por outras menos agradáveis. Mas tu e eu merecemos mais do que isso, aquilo que tivemos entre nós é precioso de mais, para ser deitado fora pela falta de coragem de aceitar que acabou. Mas a vida continua.’