A
sensação de incompletude era constante, ela sentia que lhe faltava algo que a
completasse. Até então tinha procurado nos seus relacionamentos encontrar esse
algo que acreditava faltar-lhe, no entanto sem sucesso. Os seus relacionamentos
terminavam sem que essa sensação fosse preenchida. Sim durante algum tempo a
ilusão de plenitude fazia-se sentir, inebriada pela ideia de um amor verdadeiro,
que agora sabia que era uma projeção, do seu desejo, na outra pessoa. E quando
a ilusão dissipava o vazio batia com força e ai tomava lugar as diferenças,
onde os defeitos cresciam a olhos vistos até ao fim inevitável.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
#43 Aproveitar ao máximo
Os
primeiros tempos foram de difícil adaptação. Estar junto de alguém e conseguir
ver aquilo que sentiam, era inicialmente confuso e causador de distração. Assim
como ter de lidar com esse tagarelar interno que o julgava constantemente,
dizendo que não era normal, que algo de errado se passava e que isso só poderia
ser sinal de que estaria para acontecer algum mal. Mas ele foi enfrentando a
situação recetivo ao que cada momento lhe trazia, procurava não se perder nos
julgamentos e focava-se naquilo que estava a viver. Procurava aproveitar ao
máximo, pois não sabia quanto tempo mais iria durar.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
#42 Bailado de cores
A alegria dos outros era muito colorida, um festival
de cores inundava o seu campo visual. A pessoa à sua frente ficava toda
iluminada, irradiava essa alegria em cores vibrantes que se misturavam e entrelaçavam
com quem quer que estivesse perto. Não haviam palavras que pudessem descrever
tal sensação de poder ver como o estado de espírito de alguém pode influenciar
quem está por perto. O modo como todos se conectam de formas invisíveis ao olho
humano comum, mas que agora ele podia testemunhar, em razão do seu dom, desta
sua capacidade de ver as emoções. Um bailado de cores.
#41 Aceitar com amor
Após
o choque da descoberta da capacidade de ver as emoções dos outros e de como
isso lhe surgia nitidamente, sem qualquer esforço da sua parte, sem poder
controlar se via ou não. Após toda a resistência inicial e o achar que estaria
a enlouquecer, que só poderia ser o sinal de um fim próximo. Veio a entrega, o
aceitar daquilo que estava a ocorrer consigo. De nada valia lutar contra as
evidências e então decidiu abraçar tal dom, tal capacidade e desfrutar ao máximo
aquilo que lhe trazia e o quanto lhe poderia ensinar sobre quem era com amor.
#40 Receios
Estar
com uma pessoa e ter a capacidade de ver aquilo que ela está a sentir, e ver
aqui é no sentido literal, pode complicar e muito essa relação. Foi isso que
aconteceu com ele, desde que descobriu esta sua capacidade visual, não
conseguia manter por muito tempo os seus relacionamentos mais íntimos. Primeiro
porque não conseguia explicar essa sua capacidade, não tentava sequer contar à
sua companheira, tal capacidade. Talvez por medo da sua reação, talvez por medo
da exigência que isso traria ao relacionamento. O medo da outra pessoa se achar
invadida, analisada, na sua mais intima privacidade.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
#39 Ver as emoções
É estranho
olhar a pessoa à sua frente e ver aquilo que ela está a sentir. Literalmente
ver, aquilo que ela está a sentir. Ver as emoções da outra pessoa, ver como as
sensações se expressam, é algo que altera significativamente a forma como
olhamos para essa pessoa, nada fica igual a partir do momento que se pode ver
aquilo que o outro está a sentir.
Ele gostaria que isso nunca tivesse
acontecido com ele, preferiria não ter essa capacidade. Estava confuso, havia
lutado demasiado contra tais evidências, mas não era possível mais fazer de conta
que nada se passava.
#38 Olhar de frente
Quando
escolhemos ignorar os sinais que a vida nos dá, para calmamente proceder às
mudanças que devemos experimentar, a vida não tem alternativa a não ser ampliar
a potência desses sinais.
E será assim até que não seja mais possível fugir,
até que não seja mais possível olhar para o lado e fingir que nada se passa,
que não é connosco.
Ele não foi exceção, por muito que tentasse fazer de conta
que nada se passava, as evidências eram cada vez maiores. Qual elefante no meio
de uma loja de porcelanas. Era este o momento de a olhar de frente.
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