terça-feira, 18 de agosto de 2015

#6 Sozinha

Cansada de procurar, cansada de viver como alguém insignificante, alguém invisível que ninguém parecia reparar. Não fazia falta nenhuma. Que razão tinha para viver. A sua falta não seria notada. Só queria um laivo de atenção, um gesto de amor. Desistiu de tentar. Os dias sucediam-se uns aos outros, sempre iguais. Esqueceu do que procurava. Entregou-se ao silêncio, deixou que este a preenche-se. E o vazio acabou, afinal nunca este vazio. O silêncio sempre esteve lá, segurando a sua mão, apenas o ruído interior a impedia de o sentir. Aquilo que procurava, afinal era ela própria. Nunca mais esteve sozinha.

#5 Busca

Ela só queria alguém que a ama-se, alguém que olha-se para ela com atenção e no entanto esse alguém parecia não existir. Olhava para as outras mulheres ao seu redor e via todas com os seus respetivos companheiros e uma tristeza inundava-a. Dúvidas e mais dúvidas emergiam na sua mente. O que teria de errado? Seria assim tão feia que ninguém a quisesse? Seria assim tão má pessoa que não merecia ter alguém a seu lado? Apenas amor, era o que ela queria, nada mais. Seria pedir muito? Onde quer que fosse estava sempre atenta a ver se o encontrava.

#4 O silêncio sabe

O silêncio revela a verdade e todas as máscaras se desvanecem perante ele. O silêncio é puro e está para lá de qualquer limitação, de qualquer ilusão. O silêncio é anterior àquilo que chamas de vida e continua a existir para lá do fim dessa mesma vida. Nele todas as estórias tem cabimento, nada é excluído, mesmo isso que chamas de vida. Essa ideia de algo que tem início e que vai em crescendo de rotina em rotina, até que termina. Onde cabes tu nessa estória. Será só isso a razão do teu existir? Quem és tu? O silêncio sabe.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

#3 Algo mais



Sentar, fechar os olhos e meditar. Era o que ela queria fazer, era o que lhe diziam ser o melhor para si, uma forma de resolver os seus problemas e andar mais calma. Mas ela não queria andar mais calma, ela queria resolver a sua situação. Queria dar um rumo à sua vida. Queria que esta tivesse significado. Estava farta de ser apenas mais uma peça da engrenagem, fazendo o que era suposto fazer, o que os outros diziam que era suposto fazer. No entanto onde cabia ela, onde estava a razão do seu existir. Teria de haver algo mais.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

#2 Vozes

“Não vales nada, não mereces o ar que respiras. Sem ti o mundo seria melhor.” Impropérios ecoando na sua mente, sem fim, um incessante massacre. Ela queria parar as vozes, elas não lhe pertenciam. Mas tudo era difícil, não sabia como lidar com tais vozes. Seriam elas reais ou apenas fruto da sua imaginação? Estaria ela a ficar louca? Queria refugiar-se, queria encontrar um pouco de paz, mas não tinha como escapar de si própria. Por onde fosse teria de carregar o peso dessas vozes. Sem saber o que fazer desistiu. Deixou de lhes resistir, observava apenas e depois o silêncio.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

#1 Cem estórias,cem palavras

#1
Sem palavras, sem estórias, apenas a vida é real e não aquilo que pensas que é a tua vida. Livrando-te das estórias que crês sobre ti e que alimentas através da tua atenção, descobres o quão perfeita é a vida que acontece momento a momento. Tu és essa vida, em plenitude, tudo existe em ti, nesse imenso espaço, berço das manifestações da essência. Calcorreando as palavras que brotam na tua atenção, observando como surgem e de igual modo, partem. Indo mais além, nada mais existe, senão o silêncio. Silêncio perene envolvido em paz. Residência da essência que és, sem mais.

* primeira de cem estórias com cem palavras

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Caminho

Uma porta que bate, fechando uma realidade até aí conhecida. 
Eras a minha vida. 
Tudo girava em teu torno, o meu mundo pulsava em ti. 
E no entanto partiste. 
Um clarão inundou a minha existência. 
Amorfo, caminho em busca de um rumo. 
Nada faz mais sentido.
As forças abandonam-me aos cuidados da vida. 
Haverá mais vida em mim que mereça ser vivida? 
Não sei, deixei de me interessar. 
Desisto de perceber, entregue à ilusão de te encontrar.